26 OUT 21h30 | FAIAL | Teatro Faialense
27 OUT 21h30 | SÃO MIGUEL | Teatro Micaelense
RECITAL DE PIANO

Programa

I Parte

Schubert-Liszt

Cinco transcrições das canções:

  1. Die Stadt
  2. Aufenthalt
  3. Der Muller und der Bach
  4. Gretchen am Spinnrade
  5. Auf dem Wasser zu singen

 

II Parte

C. Debussy

Prelúdios (2.º Caderno)

  1. Brouillards
  2. Feuilles mortes
  3. La Puerta del Vino
  4. «Les fées sont d’exquises danseuses»
  5. Bruyères
  6. Général Lavine – eccentric
  7. La terrasse des audiences du clair de lune
  8. Ondine
  9. Hommage à S. Pickwick Esq. P.P.M.P.C.
  10. Canope
  11. Les tierces alternées
  12. Feux d’artifice

 

Notas ao Programa

Beethoven e Schubert eram compositores que Liszt (1811-1886) admirava. No final dos anos 1830, a condessa Marie d’Agoult, com quem então vivia, traduzia-lhe para francês os poemas dos Lieder de Schubert. Quando visitou Viena, a cidade onde Schubert nasceu, começou a transcrever os Lieder do compositor austríaco e a tocá-los nos seus concertos. Estas transcrições obtiveram um sucesso tão imediato que desencadearam um enorme interesse pela parte dos editores. As encomendas sucederam-se a um ritmo tal que fizeram que Liszt acabasse por se sentir saturado com o trabalho. As transcrições davam não só a conhecer a obra de Schubert, como levavam Liszt a procurar soluções muito específicas para os problemas complexos que as obras vocais com os seus textos colocavam. Quando estas foram impressas, o compositor exigiu ao editor que imprimisse a letra entre as duas pautas do piano, para que o texto fosse familiar aos pianistas.

 

O Prelúdio, tal como o nome indica, consistia, na sua origem, numa peça em geral improvisada que introduzia a tonalidade da peça se lhe seguia. Mais tarde, passou a ser escrito com a finalidade de fornecer aos estudantes exercícios-modelo. Johann Sebastian Bach foi um dos compositores que mais explorou este género ao escrever prelúdios em todas as tonalidades para o seu Cravo Bem-temperado. Os músicos do século XIX, com o seu interesse pela música do passado, apropriaram-se de muitos dos seus géneros, entre eles o prelúdio de que Chopin nos deu 24 magníficos exemplos.

Apesar de o género em questão não possuir, durante o século XIX, um carácter programático, Debussy (1862-1918) decidiu dar um título a cada um dos seus vinte e quatro prelúdios, escritos entre 1910 e 1913 e organizados em dois cadernos. Com o título que o compositor lhes deu, terá querido não tanto representar, mas antes evocar um ambiente, reflectindo assim as ideias dos autores simbolistas seus contemporâneos. Na sua totalidade, os prelúdios revelam uma dimensão muito moderna da linguagem musical de Debussy, verificando-se já a transição para a última fase de maturidade do compositor.

Brouillards apresenta um carácter difuso que lhe advém do tratamento rítmico e tonal a que é submetido logo no início. Enquanto as notas tocadas pela mão esquerda apresentam uma figuração claramente tonal, a mão direita contraria essa ordem com a utilização de notas cromáticas. Feuilles mortes apresenta-se, do ponto de vista tonal, muito mutante, apesar de a sua estrutura obedecer a uma forma ternária tradicional. Em La puerta del vino Debussy revela o seu fascínio pela Espanha exótica tão presente na sua música (Ibéria, Soirée dans Grenade, Lindaraja). No presente caso, a imagem dessa Espanha foi-lhe sugerida por um postal enviado por Manuel de Falla retratando uma das portas do palácio de Alhambra em Granada. Neste prelúdio, ao ritmo da habanera que se ouve quase sem cessar no ostinato do baixo, entre as notas da tónica e da dominante, sobrepõem-se outros ritmos formando uma polirritmia. O andamento rápido e ligeiro, o ritmo serpenteante, os arpejos, trilos e trémulos, assim como as harmonias indecisas em Les fées sont d’exquises danseuses, tudo contribui para o ambiente destas prodigiosas bailarinas e representa um enorme desafio técnico para o intérprete. Bruyères é um dos prelúdios mais transparentes deste caderno. A linearidade da melodia inicial, construída sobre a escala pentatónica, e as frases diatónicas que se lhe seguem, fazem lembrar o prelúdio do primeiro livro La fille aux cheveux de lin. General Levine-eccentric era um clown americano de nome Edward La Vine que Debussy terá visto actuar em Paris e que o terá sensibilizado. Daí o carácter jocoso do prelúdio que contrasta com os que o precederam. No andamento que lhe deu – cake-walk – Debussy remete-nos para ritmos do music-hall americano em voga nesta época. La terrasse des audiences du clair de lune, foi o último prelúdio deste caderno a ser composto. Poderá ter sido inspirado, segundo alguns autores, numa notícia no jornal sobre a coroação de Jorge V como Imperador da Índia. Visão ou não desse país asiático, apresenta uma escrita extremamente subtil na sua composição. Ondine, como o nome indica, refere-se às ninfas aquáticas da mitologia escandinava que atraíam os homens com a sua beleza. Mais uma vez, Debussy cruza escalas diatónicas com outras formulações intervalares, no caso presente como uma escala de seis notas. A ironia presente ao longo de Hommage à S. Pickwick, uma homenagem ao sr. Pickwick de Charles Dickens, remete-nos para uma das características da personalidade de Debussy, patente nas suas crónicas musicais assinadas sob o pseudónimo Mr. Croche (senhor colcheia). Exemplo dessa ironia e irreverência é a citação ao hino inglês God Save the Queen logo no início. No enigmático Canope, homenagem à urna funerária da civilização egípcia, de que Debussy possuía dois exemplares, o compositor dá-nos, nas harmonias paralelas do início e na pedal da tónica ao longo de todo o prelúdio, a imagem do objecto inanimado. Logo a seguir surge um prelúdio que poderia ser considerado uma espécie de apresentação do conjunto de estudos que escreverá em 1915. Les tierces alternées baseia-se no intervalo harmónico de terceira, sujeito aqui a um movimento “perpétuo”. Feux d’artifice é o mais virtuoso do conjunto dos prelúdios, podendo bem constituir uma homenagem a Liszt. Do ponto de vista tonal apresenta uma total ambiguidade. É uma alusão ao Dia da Bastilha, fazendo soar a Marselhesa mesmo no final

Vladimir Viardo

Vladimir Viardo nasceu nas Montanhas do Cáucaso perto do Mar Negro. Foi aluno dilecto de Lev Naumov (herdeiro da escola de Heinrich Neuhaus), com quem concluiu o Doutoramento no Conservatório de Moscovo. Em 1971, aos 21 anos, obteve reconhecimento internacional ao ter-lhe sido atribuído o Grand Prix e o Prix du Prince Rainier do Concurso Internacional «Marguerite Long-Jacques Thibaud», em Paris. Dois anos mais tarde, foi o vencedor absoluto do Concurso Internacional de Piano «Van Cliburn», no qual foi ainda premiado pela melhor interpretação de uma obra do compositor S. Rachmaninov e de uma obra de música contemporânea. A sua tournée pelos E.U.A., que contava com mais de 70 concertos, foi interrompida pela Ex-União Soviética ao terem revogado o visto do seu passaporte. Durante 14 anos, Vladimir Viardo, ficou impedido de se apresentar em concerto no estrangeiro, e só após a era do “Glasnost” e da “Perestroika” é que pôde regressar à sua carreira internacional. Apresentou-se nas principais salas de concerto em todo o mundo, tendo colaborado com alguns dos mais importantes maestros tais como Mehta, Maazel, Comissiona e Kondrashin. Gravou para as etiquetas MelodyaPro ArteNonesuch e Pro Piano Records. Considerado um dos professores de piano mais desejados nos E.U.A. (integra a lista “The Most Wanted  Piano Teachers in  the U.S.A.”) é artista residente da Universidade do Norte Texas (UNT). Os seus alunos são oriundos de diversos países e muitos deles são vencedores de concursos internacionais.