14 SET 21h30 | TERCEIRA | Palácio dos Capitães-Generais
15 SET 21h30 | SÃO MIGUEL | Palácio de Sant’Ana
RECITAL DE MÚSICA DE CÂMARA

Aníbal Lima, violino
Paulo Gaio Lima, violoncelo
António Rosado, piano

PROGRAMA

I

M. RAVEL
Sonata para violino e violoncelo (1920-22)
Allegro 
Très vif 
Lent 
Vif, avec entrain 

C. DEBUSSY
Sonata para violino e piano (1916-7)
Allegro vivo
Intermède: fantasque et léger 
Finale : très animé 

II

C. DEBUSSY
Sonata para violoncelo e piano (1915)
Prologue 
Sérénade 
Finale

M. RAVEL
Trio para piano, violino e violoncelo (1914)
Moderé
Pantoum. Assez vif
Passacaille. Très large
Final. Animé

Notas ao programa

O compositor francês Claude Debussy (1862-1918) foi uma figura crucial no contexto do modernismo musical europeu. Durante a sua vida manteve uma relação muito estreita com figuras marcantes do modernismo, da música à literatura, como Verlaine e Mallarmé, para cujos poemas compôs música, ou com o empresário Diaghilev para cujos bailados russos escreveu Jeux.
No último período criativo da sua vida decidiu regressar à música absoluta ou puramente instrumental, utilizando um dos géneros mais “clássicos”, a sonata. Foi assim que, durante o decorrer da primeira guerra mundial e sofrendo de um cancro do qual viria a morrer, escreveu três sonatas de câmara das seis que planeava compor se a morte não tivesse surgido.
A primeira foi a sonata para violoncelo e piano, de 1915, em que o compositor explora os principais recursos não apenas técnicos como expressivos do violoncelo, alertando o pianista de que não deve esquecer que é seu dever acompanhar o violoncelo e nunca lutar contra ele.

Quer nesta sonata, quer na terceira (cronologicamente) para violino e piano, de 1917, Debussy, por influência da guerra e das ideias que então circulavam em França, decide utilizar elementos franceses, tal como vários ideólogos do seu tempo reclamavam, ou seja recorrer a uma “tradição francesa” apoiada na simplicidade e na clareza da linguagem musical. Onde mais nitidamente se identificam esses elementos é nos nomes atribuídos a alguns dos andamentos — Intermède, na sonata para violino e piano, Sérénade, na sonata para violoncelo e piano — assim como no recurso à estrutura cíclica, de origem mais moderna, utilizada pelo compositor francês César Franck (1822-1890) que Debussy muito admirava. Se na sonata para violino e piano o tema inicial, exposto pelo violino logo no princípio do 1º andamento, é claramente identificável, fazendo-se novamente ouvir no violino no início do 3º andamento, já na sonata para violoncelo e piano a exposição do tema assim como as suas repetições são feitas de forma mais subtil, tornando-se menos perceptível a sua identificação. Outras influências, utilizadas pelo compositor já em obras anteriores, fazem-se sentir nas duas sonatas, como os ritmos espanhóis. Também são detectáveis sonoridades orientais na melodia e na harmonia da sonata para violino e piano, evidenciando o fascínio que as culturas extra-ocidentais despertaram no compositor, sobretudo a partir da Exposição Universal de Paris de 1889.

Depois da morte de Debussy, Maurice Ravel (1875-1937) foi considerado, por muitos, o principal representante da música francesa. Entre 1920 e 1924, o compositor produziu três obras em homenagem aos seus predecessores. A sonata para violino e violoncelo (1920-1922) foi dedicada a Claude Debussy. Nesta obra, Ravel, tal como Debussy, optou pela música absoluta e pelas formas clássicas, nomeadamente pela forma-sonata no 1º andamento e pela forma rondó no último andamento. Quer o duo como o trio que se vão ouvir no presente recital são composições exigentes para os intérpretes em termos de recursos técnicos. Na sonata, Ravel opta pela ambiguidade entre o modo maior e o menor, tal como se pode verificar logo no início, no arpejo do violino reiterado repetidamente. Aos dois instrumentos é dado um protagonismo muito semelhante, trocando de papeis frequentemente, numa textura assumidamente contrapontística e totalmente despojada de artifícios.

O trio, para piano, violino e violoncelo, foi composto imediatamente antes do início da primeira guerra mundial e, segundo um dos seus biógrafos, Ravel tê-lo-ia terminado com grande rapidez de forma a poder alistar-se no serviço militar. Trata-se igualmente de uma obra de grande bravura para os intérpretes, jogando o compositor com uma ambiguidade tonal. A forma como utiliza os registos dos três instrumentos chama igualmente a atenção para a sua mestria enquanto orquestrador, ao criar a ilusão de uma formação instrumental maior do que o trio. Os ritmos, de influência basca, região de origem da sua mãe, exerceram um grande fascínio na música de Ravel como se pode observar nesta obra.

Aníbal Lima, violino

Foi aluno de Herbert Zils no Conservatório Nacional de Lisboa (Curso Superior de Violino). É membro fundador do «Quarteto de Cordas de Lisboa», agrupamento distinguido com o 1.º Prémio do Concurso Guilhermina Suggia (1972). Foi bolseiro do governo da ex-União Soviética para estudar no Conservatório de Odessa e no Conservatório Tchaikovsky de Moscovo, onde se diplomou em 1980, na classe de Sergei Kravechenko. Em 1983, obteve o 2.º Prémio no Concurso Internacional Villa-Lobos. Como solista apresentou-se com as principais orquestras portuguesas, e realizou concertos um pouco por toda a Europa, China, Macau e Tailândia. Foi chefe de naipe dos segundos violinos da Orquestra Gulbenkian nos anos 70, e posteriormente 1.º Violino (concertino) nessa mesma orquestra. Professor de mérito reconhecido, que conta já com 25 alunos laureados em concursos nacionais e internacionais, actualmente lecciona na Academia Nacional Superior de Orquestra (ANSO).

Paulo Gaio Lima, violoncelo

Foi aluno de Madalena Costa no Conservatório de Música do Porto e de Maurice Gendron no Conservatório Superior de Paris, onde foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e do Ministério da Cultura. Apresentou-se a solo e com formações de câmara em inúmeros festivais em Portugal e no estrangeiro. Colaborou com importantes orquestras internacionais e foi violoncelo-solo convidado da Orquestra Sinfónica do Reno (1987) e mais tarde foi igualmente violoncelo-solo da Orquestra Metropolitana de Lisboa (1992-2000). Integrou o Quarteto Verdi e o Quarteto de Paris e é membro fundador do «Artis Trio» com o Aníbal Lima e António Rosado. Para além da intensa actividade concertística realizou gravações para as etiquetas EMI e RCA. Pedagogo com méritos reconhecidos e com alunos premiados, é docente na Academia Nacional Superior de Orquestra e na Universidade de Évora.

António Rosado, piano

Actuou em palco, pela primeira vez, aos quatro anos de idade. Iniciou os seus estudos musicais com o seu Pai e terminou o Curso Superior de Piano, com classificação máxima, no Conservatório Nacional de Música de Lisboa. Aperfeiçoou os seus estudos no Conservatório Superior de Música de Paris, na classe de Aldo Ciccolini. Foi laureado em vários concursos nacionais e internacionais. António Rosado tem uma carreira reconhecida nacional e internacionalmente, tendo-se apresentado com importantes orquestras internacionais e notáveis maestros. Em 2007 foi distinguido pelo Governo Françês com o grau de Chevalier des Arts et des Lettres. Já realizou diversas gravações, incluindo a integral das Sonatas para piano do compositor português Fernando Lopes Graça e mais recentemente, os Prelúdios de Armando José Fernandes e de Luís Freitas Branco.