6 SET 21h00 | Corvo | Igreja de N. Sr.ª dos Milagres
7 SET 21h30 | Faial | BPARH
8 SET 21h30 | Flores | Museu das Flores
RECITAL DE CANTO E GUITARRA

Ana Paula Russo, soprano
Carlos Gutkin, guitarra

PROGRAMA

R. Gerhard
El Toro 
La Ausencia 

F. García Lorca
Nana de Sevilla
Sevillana del Siglo XVIII 

B. Britten
«5 songs from the British Isles»
1. I will give my love an apple 
2. Sailor boy 
3. Master Kilby
4. Bonny at Morn 
5. The soldier and the sailor 

C. Surinach
Pequeno ciclo de três canções

A. Ginastera
El árbol de olvido (arr. C. Gutkin)

Adolfo Guzman
No puedo ser feliz (arr. C. Gutkin)

S. Garay
La tarde (arr. F. Chaviano)

M. Matamoros
Lágrimas Negras (arr. C. Gutkin)

M. de Falla
Sete canções populares espanholas
1. El pano moruño 
2. Seguidilla murciana 
3. Jota
4. Nana 
5. Asturiana 
6. Canción 
7. Polo 

Carlos Gutkin, Ana Paula Russo

Notas ao programa

O programa do presente recital organiza-se em torno da canção popular tratada por compositores que, à excepção de Benjamin Britten, são de origem espanhola e hispano-americana.
O século XIX foi o século dos nacionalismos, quer na Europa quer na América latina, tendo a canção popular constituído um elemento essencial da identidade desses povos.
Recolhidas e organizadas em cancioneiros desde os finais do século XVIII, as canções populares foram amplamente utilizadas pelos compositores que, identificando-as com a raiz do povo, como que corporizando o seu elemento mais expressivo e longínquo, nelas se inspiraram para criarem uma matriz identitária em que a nação não só reconhecesse as suas origens, como a partir delas projectasse as suas aspirações futuras. O entendimento da tradição passou, numa primeira fase, pela imitação das sonoridades tradicionais nas obras de forma a incorporarem uma cor local. Numa fase posterior, os elementos que constituíam essa mesma tradição funcionaram como um desafio para o compositor que procurou, a partir deles, uma alternativa às convenções musicais.
Numa época em que a originalidade estava no centro da criação musical, a “autenticidade” residia naquilo que distinguia o compositor e não no que imitava. Nesse sentido, os materiais musicais de origem popular, que resistiam à gramática musical estabelecida, desafiavam a imaginação dos músicos para soluções menos convencionais. A música concebida segundo estas linhas orientadoras não só mantinha um compromisso com o passado como fugia à “normalidade”, subtraindo-se à acusação de elitismo.

Na simbiose do popular com novas soluções nasceram alguns dos produtos mais interessantes da primeira metade do século XX. A música de Manuel de Falla (1876-1946) e de Benjamin Britten (1913-1976) é disso exemplo. Este último criticava o tratamento musical que era dado ao material folclórico pelos seus conterrâneos, assim como punha em causa a sua “autenticidade”. Os arranjos que veio a fazer sobre uma grande quantidade de canções populares francesas e das ilhas britânicas, publicadas em seis volumes, evidenciaram não só a sua nostalgia pela Inglaterra dos século XVIII e XIX, como transmitiram um olhar menos complacente que o dos seus colegas pelos modelos que lhe serviram de inspiração, ao mesmo tempo que revelaram uma preocupação com a linguagem musical do século XX que soube fundir com mestria nos arranjos que produziu.

Manuel de Falla pertenceu à chamada geração de 1898, um grupo de músicos que, tendo estado em contacto com a vanguarda musical em Paris, repudiou o casticismo fácil e procurou combinar o que de melhor se fazia na capital francesa com a música andaluza. A letra de algumas das Sete canções populares espanholas (estreadas em 1915) contém uma alusão subtil à preocupação com a virgindade da mulher andaluza antes do casamento. Falla acentua os significados contidos em cada um dos poemas, ao mesmo tempo que mantém a simplicidade das melodias originais e enfatiza as suas principais características. Foi seu contemporâneo, o granadino Federico Garcia Lorca (1898-1936), conhecido especialmente pela sua obra poética e dramática. Contudo, muito cedo aprendeu música e colaborou por mais de uma vez com Manuel de Falla. As suas canções, baseadas em colecções de cantos e danças andaluzas (embora tivesse alterado algumas das letras), foram por si harmonizadas, tendo-se internacionalizado a partir do momento em que as gravou ao piano com a célebre cantora La Argentinita em 1931.

Discípulo de Falla, e possivelmente o compositor mais importante depois dele, o catalão Roberto Gerhard (1896-1970) fez parte da geração que ficou conhecida como a geração de 1927, por sintonia com o mesmo movimento poético. Englobou os compositores nascidos por volta de 1900 que começaram a sua carreira nos anos 20. Escolhendo o exílio depois da vitória franquista, Gerhard manteve a tradição folclorista, ao mesmo tempo que enveredou por outras correntes mais radicais como o serialismo e a música electrónica. As canções El Toro e Ausencia, de 1956, são evocações estilizadas de algumas canções populares espanholas. Também de origem catalã é o compositor Carlos Surinach (1915-1997) que, em 1951, decidiu ir viver para os Estados Unidos tendo adquirido a nacionalidade americana em 1959. Tornou-se conhecido pela sua música para bailado, sobretudo para as coreografias de Martha Graham, e desde o início da sua carreira que a influência da música flamenca foi nítida na sua obra.

Alberto Ginastera (1916-1983) foi um compositor argentino, de origem catalã, associado ao movimento nacionalista do seu país, que, primeiro, fez um uso directo dos materiais populares argentinos com recurso ao vocabulário tonal e, a partir de 1947, utilizou uma linguagem simbólica com a qual pretendeu criar um estilo musical argentino. A canção El árbol de olvido, de 1938, pertence ao primeiro período.

São cubanos os compositores Sindo Garay (1867-1968), Miguel Matamoros (1894-1971) e Adolfo Guzman (1920-1976). O primeiro foi um músico auto-didacta e um dos principais representantes da trova tradicional cubana, género que, tendo surgido no século XIX, era tocado por músicos itinerantes que cantavam os seus boleros acompanhando-os à guitarra. Miguel Matamoros foi também um guitarrista auto-didacta representante da trova cubana. No tema de Lágrimas Negras o estilo do bolero funde-se com o do son, estilo de música muito popular nos anos 1930 que se caracterizou por uma fusão de elementos musicais espanhóis com africanos e que veio dar origem à salsa. O último, Adolfo Guzman, teve um papel musical relevante, primeiro na rádio e depois na televisão cubana. A canção No puedo ser feliz, de 1954, obteve um grande êxito não só em Cuba como em toda a América latina.

Maria José Artiaga

Ana Paula Russo, soprano

Nasceu em Beja. Concluiu o Curso Superior de Canto do Conservatório Nacional, escola onde actualmente lecciona a mesma disciplina. Aperfeiçoou os seus estudos em Salzburgo (Áustria) e Lucerne (Suíça) com Elizabeth Grümmer e H. Diez, tendo colaborado também com Gino Becchi, C. Thiolass, Regine Resnick e Marimi del Pozo. Licenciou-se em Canto na Escola Superior de Música de Lisboa. Foi laureada em vários concursos nacionais e internacionais, dos quais se destaca o 1.º prémio de Canto no concurso da Juventude Musical Portuguesa e no Concurso Olga Violante (1988). Um ano mais tarde representou Portugal, através da Rádio e Televisão de Portugal (RTP), no concurso internacional «Cardiff Singer of the World». A sua carreira tem tido um especial destaque como solista, tendo sido convidada para várias óperas e importantes festivais, entre outros, em Portugal, Espanha, Bélgica e EUA. Colaborou em vários programas da Antena-2 como por exemplo, «O Despertar dos Músicos» e «Noite de Ópera». Já realizou diversas gravações, na sua maioria dedicadas a compositores portugueses.

Carlos Gutkin, guitarra

Nasceu em Buenos Aires, Argentina. Iniciou os seus estudos musicais e de guitarra clássica em Cuba com o professor Flores Chaviano. Prosseguiu os seus estudos de guitarra no Real Conservatório Superior de Música de Madrid com o professor Dematrio Ballesteros. Aperfeiçoou os seus estudos com Alberto Ponce, M. Barrueco, E. Isaac, R. Aussel e Leo Brouwer. Dedicou-se à composição e teve uma intensa actividade como compositor e intérprete na área do Teatro. Em composição, foi finalista do 1.º Concurso «Luso-Hispano de Composição para Guitarra de Badajoz», em 2006. Tem-se apresentado como solista e integrado em diversos agrupamentos de música de câmara, em Cuba, Espanha, Brasil, EUA, França e Portugal. Formou o Duo Atlântico, em 1996, com o flautista José Rui Fernandes, com quem gravou o CD «Jardins de Luz» (2006) com obras da sua autoria. Desde 1996 que colabora com Ana Paula Russo (soprano), com quem gravou o CD «Melodia Sentimental» (2001). Lecciona, desde 1994, na Escola de Música de Linda-a-Velha.