30 NOV 21h30 | TERCEIRA | Palácio dos Capitães-Generais
1 DEZ 21h30 | SÃO MIGUEL | Teatro Micaelense
GILILOV QUARTETT BERLIN

Christoph Schickedanz, violino
Rainer Mehne, viola d’arco
Markus Nyikos, violoncelo
Pavel Gililov, piano

PROGRAMA

I

W. A. MOZART
Quarteto com piano em sol menor, K. 478
Allegro
Andante
Rondo

J. TURINA
Quarteto com piano em lá menor, op. 67
Lento
Vivo
Andante

II

J. BRAHMS
Quarteto com piano em sol menor, op. 25
Allegro
Intermezzo
Andante con moto
Rondo alla zingarese

Notas ao programa

A música de câmara no tempo de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) era um negócio muito rentável para os editores de música, dado o grande interesse do público amador em a tocar quer em família quer no círculo das suas amizades. Essa terá sido a razão pela qual o editor austríaco Hoffmeister encomendou três quartetos com piano a Mozart. Quando o compositor austríaco lhe apresentou o primeiro da série (K. 478), o editor, temendo a dificuldade que este quarteto pudesse apresentar aos intérpretes não profissionais e os prejuízos económicos que daí adviriam, desistiu dos dois restantes. Contudo, Mozart escreveu um segundo (K. 493) que foi publicado pelo editor Artaria.

O quarteto com piano era um género ainda pouco comum na época de Mozart. Joseph Haydn, por exemplo, não tinha escrito para esta formação. Mozart foi o primeiro a conferir-lhe uma escrita sólida com todos os instrumentos a terem um protagonismo idêntico. Em 1785, ano em que acabou o seu quarteto em sol menor K. 478, o compositor gozava de enorme prestígio quer como compositor quer como intérprete. Nesse mesmo ano tinha escrito dois concertos para piano, uma oratória e preparava a sua ópera As Bodas de Fígaro (1786). O primeiro andamento do quarteto apresenta-se sombrio, numa tonalidade menor, com um tema inicial, exposto pelos quatro instrumentos, muito incisivo e dotado de grande força, que parece anunciar o tema do “destino” da 5ª sinfonia de Beethoven. Numa escrita predominantemente contrapontística, os quatro instrumentos dialogam entre si em perfeito equilíbrio. As grandes frases melódicas do andamento seguinte e o seu ambiente sereno criam um grande contraste com o anterior, apesar da sua estrutura igualmente em forma-sonata. No rondó, Mozart regressa ao tom inicial mas agora no modo maior. O refrão é composto por dois temas distintos, seguindo-se dois episódios, o segundo dos quais recorda o carácter dramático do 1º andamento.

Joaquín Turina nasceu em Sevilha em 1882. Fez os seus estudos musicais em Madrid e, em 1905, partiu para Paris para estudar na famosa Schola Cantorum de Vincent d’Indy. Na capital francesa apresentou-se como pianista e compositor. Por influência dos seus conterrâneos, Albeniz e Falla, interessou-se pela música popular espanhola, em particular da zona da Andaluzia onde foi buscar inspiração para a sua música. Após a sua graduação em Paris, Turina regressou a Espanha, em 1914, onde desenvolveu a sua carreira profissional como maestro, pianista, compositor e professor no Conservatório de Madrid. O quarteto com piano op. 67 foi escrito em 1931. Nesta obra, Turina reflecte não só a influência de alguma música francesa ao optar pela forma cíclica, que consiste na repetição de um mesmo tema nos três andamentos de forma a dar unidade à obra, como na incorporação de elementos do folclore andaluz na linguagem musical.

A música de câmara na obra de Johannes Brahms (1833-1897) tem um lugar particularmente importante. O quarteto com piano op. 25, de 1861, surgiu a seguir a um trio e a um sexteto e foi imediatamente seguido de um novo quarteto com piano. Só cerca de vinte anos mais tarde escreveria um terceiro para a mesma formação instrumental. Na presente obra, de grandes dimensões, o compositor evita dar uma ênfase excessiva ao piano. O primeiro andamento, com uma estrutura em forma-sonata, tem uma temática algo complexa. O primeiro tema é exposto logo no início pelo piano e retomado progressivamente pelos restantes instrumentos. Surge, em seguida, uma segunda ideia apresentada pelo piano e imitada pelo violino e pela viola. O segundo grupo temático é composto por três ideias principais todas na tonalidade maior. A primeira e a segunda, com um carácter muito lírico, são apresentadas primeiramente pelo violoncelo e depois pelo violino e pela viola respectivamente.

A última surge com o piano e a viola. O desenvolvimento é relativamente curto e na reexposição só se voltam a ouvir alguns dos temas. O 2º andamento tem o nome de Intermezzo e não de Scherzo, embora mantenha o Trio na sua secção central. Desenvolve-se num diálogo permanente entre os quatro instrumentos com um ritmo vivo mas algo tenso devido ao ostinato que se faz ouvir no registo grave nas suas partes extremas. No 3º andamento, Brahms volta a recorrer a uma enorme variedade de temas com cambiantes muito diversos que vão do solene ao lírico, do marcial ao sombrio, para voltar ao carácter inicial. De uma grande riqueza quer rítmica quer melódica, o andamento encontra-se apoiado, tal como os anteriores, numa poderosa base harmónica. O rondó alla zingarese, tal como o nome indica, reflecte o imaginário que Brahms reteve da sua viagem com o violinista Remenyi à Hungria e que o compositor ainda haveria de repercutir nas suas danças húngaras. Brilhante do princípio ao fim, com a indicação de Presto, tornou-se num dos andamentos de maior dificuldade para os intérpretes e num dos hits do compositor. Schoenberg havia de o orquestrar mais tarde.

Maria José Artiaga

GILILOV QUARTETT BERLIN,

Fundado em 1985, é um dos principais agrupamentos de música de câmara da Orquestra Filarmónica de Berlim. O Gililov Quartett Berlin realizou vários concertos de beneficência com o objectivo de contribuir para a construção da sala de música de câmara na Berliner Philharmonie (Alemanha), na qual apresentou muitos dos concertos que tornaram este agrupamento num dos mais reputados ao nível internacional. O seu repertório é vasto e abrange o período clássico, o romântico e o contemporâneo. O Gililov Quartett Berlin já se apresentou em concerto na Bélgica, Reino Unido, França, Itália, Espanha, Áustria, Suíça, Japão, Coreia, Cuba, México, Canadá e E.U.A. Pavel Gililov, pianista, foi recentemente homenageado pelos três músicos que constituem este agrupamento ao terem sugerido que o Quarteto, anteriormente designado como «Quarteto da Filarmónica de Berlim», passasse a ter o seu nome. Pavel Gililov, nasceu na antiga União Soviética e foi o vencedor do Concurso Nacional de Piano de Moscovo, em 1972, para além de ter sido galardoado no Concurso Internacional «Chopin», em Varsóvia (1975), e no Concurso Internacional de Piano de Vercelli (1978). Para além da intensa actividade como solista, realizou várias gravações para as mais prestigiadas etiquetas, tais como a Deutsche Grammophon, RCA, EMI e Virgin.

Actualmente é Professor convidado da Academia de Verão do Mozarteum de Salzburgo e director artístico e presidente do júri do Concurso Internacional «Telekom Beethoven», em Bona (Alemanha). Christoph Schickedanz, violinista, foi laureado em vários concursos na Europa e E.U.A., e actualmente é professor no Conservatório de Hamburgo. Rainer Mehne, violetista, integra a Orquestra Filarmónica de Berlim desde 1975, e é regularmente convidado pelos principais festivais europeus para realizar concertos de música de câmara e ministrar masterclasses de violino e viola d’arco. Markus Nyikos, violoncelista, foi também laureado em vários concursos, nomeadamente no Concurso «Gaspar Cassadó», em Florença. Actualmente é professor na Universidade das Artes em Berlim, e integra vários agrupamentos de música de câmara com músicos da Orquestra Filarmónica de Berlim, incluindo o conhecido ensemble «The Twelve Cellists».