12 OUT 21h30 | TERCEIRA | Igreja de Nossa Senhora da Guia
13 OUT 21h30 | SÃO MIGUEL | Teatro Micaelense
CAPELLA DURIENSIS

Jonathan Ayerst, direção musical

PROGRAMA

I

J. TAVENER
Song for Athene 

I. STRAVINSKY
Ave Maria  
Pater Noster

B. BARTÓK
5 Canções Húngaras «Kórusművei»
1. Sag mir doch den Weg  
2. Geh nicht, verlaß mich nicht 
3. Hab niemand auf der Welt 
4. Ein Felsen 
5. Icca Ricca tu

J. ALAIN
Messe Modale en Septuor (para vozes femininas)  

II

M. A. BALAKIREV
Hino Querubínico 

C. CUI
Magnificat de Beata Virgine 

A. GRETCHANINOV 
Nunc Dimittis 

G. LIGETI 
Lux Aeterna 

 

Notas ao programa

As obras que constituem o presente programa pertencem todas ao século XX, sendo algumas de compositores de referência no campo da música coral. Igor Strawinsky (1882–1971), filho de um barítono do teatro Mariinsky de São Petersburgo e de uma cantora amadora e pianista fluente, tornou-se conhecido a partir das composições que escreveu para os bailados russos de Serge Diaghilev. Com obras marcantes nos vários géneros musicais, deixou, entre outras obras vocais, uma Missa para o culto católico (1944-48) e a Sinfonia dos Salmos (1931). A Ave Maria e o Pater Noster, coros religiosos dos quais faz igualmente parte um Credo, são fruto da devoção que Strawinsky dedicou ao culto ortodoxo a partir de 1926 e poderão ter sido escritos para os serviços litúrgicos da igreja russa em Nice, onde vivia na altura. Na composição destes coros, o compositor terá tentado recriar a atmosfera da música da igreja do seu país natal, segundo as memórias musicais que dela guardava.

A melodia do Pater Noster é composta a partir da tradição do canto ortodoxo tendo como base uma melodia repetitiva à qual se associa o texto em estilo silábico. A Ave Maria, de 1934, de escrita modal, caracteriza-se por um estilo mais ornamental. Béla Bartók (1881-1945), filho de músicos amadores muito hábeis, começou a estudar música desde cedo. O conhecimento com Zoltán Kodály, em 1905, contribuiu para o ajudar a estabelecer bases sólidas no conhecimento do vocabulário musical presente na música popular da Europa Central que veio a integrar de forma inovadora e consistente na sua obra. No ano que precedeu a composição das canções húngaras, Bartók tinha finalmente conseguido libertar-se do cargo de professor de piano da Academia Ferenc Liszt em Budapeste, para, com Kodály, trabalhar num projecto científico de catalogação e publicação de músicas tradicionais para a Academia Húngara das Ciências. O conjunto de canções deste programa fazem parte de uma colectânea de 1935 e 1936 que reúne 27 coros a duas e três vozes escritas para vozes infantis e vozes femininas. Nelas se reflecte a influência da linguagem neo-clássica de Strawinsky, consubstanciada nestas peças por um interesse pela escrita contrapontística de compositores renascentistas e barrocos. A maioria das canções segue uma estrutura estrófica, em que um estilo mais homofónico (Sag mir doch den Weg, Ein Felsen) alterna com um estilo imitativo (Geh nicht, verlaß mich nicht, Hab niemand auf der Welt).

Jehan Alain, pertencente a uma família de músicos, nasceu próximo de Paris, em Saint Germain-en-Laye, em 1911, e morreu em combate, em 1940, na segunda Grande Guerra. Apesar de ter tido uma vida curta, deixou cerca de 120 obras, grande parte das quais para piano e órgão, instrumentos em que fez a sua formação musical. A Missa modal, de 1938, é uma das suas últimas composições constituída pelas seguintes rubricas: Kyrie, Gloria, Sanctus – Benedictus, Agnus Dei. O nome com que a missa vem designada deve-se à base modal em que é construída. A fluidez do seu discurso musical, embora possa traduzir algumas características do canto gregoriano, reflecte igualmente uma liberdade rítmica que terá seduzido o jovem compositor.

John Tavener é um compositor inglês nascido em 1944. Muita da sua música é influenciada pelas profundas convicções religiosas no domínio do culto ortodoxo, assim como pelos seus ícones e ritos. A inspiração que levou o compositor a escrever a canção para Athene (Song for Athene) surgiu-lhe após a morte de uma jovem actriz grega, Athene Hariades, amiga da sua família, que morreu num acidente de bicicleta. O texto contém um verso de Shakespeare “flights of angels sing thee to thy rest”, poeta que o compositor ouvira declamar à actriz, assim como palavras do serviço fúnebre ortodoxo. Escrita numa linguagem muito simples, constituída por linhas melódicas muito sóbrias, esta obra ficou conhecida internacionalmente por ter sido interpretada no ceremonial fúnebre da princesa Diana, princesa de Gales. O compositor russo Mily Alekseyevich Balakirev (1837-1910) foi o principal mentor do grupo de músicos que se formou na Rússia em meados do século XIX e que ficou conhecido como Grupo dos Cinco, do qual faziam parte Modest Mussorgsky, Nicolai Rimsky-Korsakov, Alexander Borodin e César Cui. Estes músicos cultivavam diferentes géneros e estilos de música e costumavam reunir-se em casa de Balakirev para ouvir, tocar e falar de assuntos musicais. Dessas sessões surgiram concepções musicais marcadamente nacionalistas que se reflectiram não só nas obras destes compositores como nas das gerações seguintes. As ideias defendidas por estes músicos entravam em colisão com as praticadas nos Conservatórios oficiais pelo que, em reacção ao ensino aí praticado, surgiu uma escola de música de ensino gratuito, com particular enfoque no canto, sobretudo no canto em coro, de forma a responder às solicitações da igreja ortodoxa russa. O movimento nacionalista que se desenhara para a música profana em meados do século XIX teve, assim, repercussões semelhantes na música para o culto ortodoxo.

Nos anos 1870 Balakirev tinha sofrido alguns revezes na sua vida familiar e profissional que o levaram a voltar-se para a religião ortodoxa. Contratado como director musical da capela da corte de Alexandre III, escreveu várias obras religiosas, entre as quais o Hino Querubínico, ou canção dos anjos, que se canta durante a Liturgia Divina depois da leitura do Testamento. No contexto do círculo de Balakirev, César Cui (1835-1918), com uma formação inicial em engenharia, teve um papel mais destacado como cronista da vida musical russa e na propagação dos ideais do grupo — em particular no que dizia respeito ao realismo, à verdade dramática e à declamação — durante os quase quarenta anos em que escreveu para a imprensa. Como compositor, não teve o mesmo impacto dos restantes, embora no final do século XX tivesse sido objecto de uma renovada atenção. Alexandre Gretchaninov pertence à geração seguinte dos músicos que temos vindo a falar. Nascido em Moscovo em 1864, começou a estudar piano aos catorze anos e prosseguiu os seus estudos neste instrumento e em composição, primeiro no Conservatório de Moscovo e depois no de S. Petersburgo. Tendo-se destacado na música para crianças e na música litúrgica, recebeu em 1910 uma pensão pela sua obra no domínio da música religiosa, a qual lhe foi retirada após a revolução russa de 1917. Não se identificando com o novo regime, foi viver primeiro para Paris e depois para os Estados Unidos, onde se tornou cidadão americano em 1946. Das suas convicções religiosas fazia parte uma forma de ser liberal que, nas suas obras para a liturgia, nem sempre recebiam o melhor acolhimento por parte dos músicos ligados à igreja.

György Ligeti, filho de uma família húngara judaica, nasceu em 1923 na Transilvânia, uma região pertencente à Roménia, e morreu em Viena em 2006. Fez os seus estudos musicais no conservatório de Budapeste, onde logo a seguir passou a dar aulas de harmonia e contraponto. Em 1956, após ter fugido da Hungria, passou por várias centros musicais europeus onde tomou contacto com a vanguarda musical. A sua obra é muito eclética, fazendo constantemente uso de processos inovadores e exploratórios. Lux Aeterna, de 1966, uma encomenda do director da Schola Cantorum de Stuttgart, repercute as massas sonoras densas de obras suas anteriores, agora com vozes. O texto é retirado da Missa de Requiem do culto católico, embora as palavras se tornem indecifráveis devido à textura compacta da polifonia. A sequência de intervalos é realizada com períodos de tempo de tal forma organizados que se perde a noção da divisão rítmica, de onde resulta um lento contínuo sonoro, só interrompido por acontecimentos pontuais.

Maria José Artiaga

CAPELLA DURIENSIS | JONATHAN AYERST, direçao

Capella Duriensis é um ensemble vocal especializado em música a cappella, fundado em 2010 e com sede na cidade do Porto.
O seu repertório inclui música Ortodoxa Russa do séc. XIX, Canto Litúrgico Antigo da Europa Ocidental, polifonia do período Renascentista Português, música folk da Europa de Leste e música litúrgica do séc. XX. Este ensemble vocal é dirigido por Jonathan Ayerst, pianista do Remix Ensemble e maestro assistente do Coro Casa da Música.